30 de setembro de 2011

[Comportamento] Faça você mesmo


autora Jéssica Santos de Souza

Pouca gente se dá conta, mas está quase quarentão um dos “filhos” caçulas do rock. O movimento punk acrescentou a essa revolucionária história musical sua pegada mais bruta – e junto com ela, como em outros momentos do rock, trouxe ao cotidiano urbano um de seus mais diferentes e duradouros legados de comportamento social e postura política. Em termos musicais, pode-se dizer que as raízes do rock e alguns de seus frutos – do canto mais doído das comunidades negras americanas que levariam ao blues e ao jazz e depois ao rock’n’roll, ao progressivo, ao heavy metal e ao punk – compõem um acervo criativo que escapa ao modismo, a ser sorvido por toda a eternidade. Mas, quando se pensa nos aspectos físico do rock, a cenografia, o figurino, e sobretudo na postura política perante o mundo, nada é tão longevo quanto o lema “do it yourself” (faça você mesmo) e todo o componente anárquico que ele carrega.

“Senão fosse esse lema, não teríamos ido adiante, até porque há a idéia errada das bandas de aguardar alguém que as promova. E no punk havia também a atitude política do anarquismo, de botar a mão na massa”, acredita o músico Clemente, dos Inocentes, uma das mais importantes bandas braileiras do gênero, criada em 1981.
Never Mind the Bollocks, de 1977, primeiro disco do Sex Pistols: quem ainda tinha dúvidas se virava punk, se converteu
Aos 18 anos e 30 mais jovem que o baixista, o estudante Bruno Cavalcante vê na cultura punk a idéia de subverter a ordem e contestar tudo que considera errado. “Um menino entra no movimento, muitas vezes sem nunca ter escrito um texto por vontade. Daí ele conhece os fanzines e cria uma nova forma de pôr no papel as indignações e, com o tempo, se ele acha que o texto é pouco, cria uma banda para divulgar suas idéias ou procura outras formas de protesto", define Bruno. Para ele, que acredita contribuir para o movimento participando de protestos de rua e de ações sociais, o punk no Brasil começou ligado a brigas de gangues e hoje se tornou mais politizado.

Peter Shelley, fundador, vocalista e guitarrista da banda punk Buzzcocks, surgida em Manchester, na Inglaterra, hoje com 56 anos e já avô, tem opinião parecida quando reflete que o grande papel do movimento foi romper com o establishment de modo mais radical do que haviam feito Beatles e Rolling Stones, na década de 1960. Para o músico, a maior herança do punk está na internet. "Ela tornou possível que as pessoas estejam muito mais em contato com a música hoje em dia e que os músicos, por sua vez, dependam cada vez menos das grandes gravadoras e distribuidoras", aponta.

Arte e Movimento

Essa maneira de produção cultural influenciou outras artes, caso da literatura de ficção científica. O jornalista Romeu Martins é especialista na área e autor de contos publicados em 2009 na coletânea Steampunk - Histórias de um Passado Extraordinário, que acaba de ganhar edição em inglês. "Tudo começou no cyberpunk, na segunda metadae dos anos 80. O movimento liderado por William Gibson e Bruce Sterling levou a ideologia punk ao mundo da ficção científica, ajudando a dar maior relevância aos verdadeiros produtores do gênero - os escritores - e incluindo uma temática muito mais politizada e não conformista", explica Romeu. "Quando o escritor K. W. Jeter escreveu uma carta em 1987 para a revista Locus batizando o steampunk, ele apenas fazia uma analogia com o cyberpunk, mas o sentido original, de vagabundo, marginal, começava a se perder", relata.

"Eu era de uma turma de colecionadores de discos na Vila Carolina que era revoltada com o rock que se fazia na época e ouvia o pré-punk de bandas como The Stooge, MC-5 e New York Dolls. Aí veio o punk, e a identificação foi imediata." Clemente

fonte: Revista do Brasil nº 63 setembro/2011

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